quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Lua de Vidro

All the lonely people
Where do they all come from?
All the lonely people
Where do they all belong?
(Eleanor Rigby -The Beatles)

Como se fosse um aquário, ela tateou em volta de si mesma tentando encontrar uma saída. Mas foi inútil! Suas mãos sempre tocavam aquela barreira gélida feita de vidro.
Sentada no chão, abraçada como seus joelhos, ela chora. Cansada dessa prisão transparente, ela se desespera ao observar o mundo lá fora. E ficava imaginando...
- Como seria a minha vida além desses muros de vidro? Que aventuras estariam me esperando? Como eu vim parar aqui, dentro dessa bolha invisível aos olhos alheios?
São muitas perguntas sem respostas e sua única certeza é ver que o céu a espera acima de seus olhos. A lua exuberante é a única luz que a aquece, mesmo sabendo que a lua não possui sua própria luz. Porém, do lugar que ela observa até a lua parece ser de vidro e a qualquer momento ela pode-se partir em pedacinhos, tirando-lhe o seu único conforto e cortando-lhe ferozmente a carne.
Só faltava examinar o teto, que suas mãos pequenas e suas pernas curtas não alcançavam.
- Com certeza o céu acima de mim não está bloqueado como as paredes em minha volta? - indagou, querendo ser capaz de voar como um pássaro, para poder alcançar o teto e escapar de sua prisão.
E então, ela poderá sentir o vento fresco da noite e ouvir a canção das estrelas. Poderá sentir o sabor da liberdade com seu corpo flutuando por entre as nuvens e a sua mente despreocupada com os muros de seu coração.
As quatro paredes de concreto e a porta de madeira eram apenas um pequeno mostruário das muralhas de vidro em volta dela, que a impossibilitavam de ser feliz, que a impossibilitavam de viver. Sem janelas o ar fica rarefeito, sem possibilidades as esperanças se tornam caus. E a lua de vidro no céu de vidro cintilava em seus olhos de vidro, convidando-a a fugir desse corpo aprisionado.
Então, de repente seus pés fatigados de correrem sentados começam a formigar levemente e à medida que esse formigamento cresce, ele se espalha pelos joelhos, coxas, costas e braços, até que finalmente seus cabelos balançam graciosamente de um lado para outro, mesmo sem a ação de vento algum.
E maravilhada com o presente da lua, seu corpo se desprende do chão e ela começa a flutuar pelo quarto, as lágrimas escapam de seus olhos, mas ao invés de caírem, elas se transformaram em bolhas cristalinas que piscavam pelo quarto feito vaga-lumes.
E ela subia, subia, subia, até parecer ser o limite das paredes em volta. Com as mãos trêmulas, ela toca o teto transparente e sente aquela barreira sólida e gélida que já conhecia. E pensa:
- Meus Deus! Como o mundo está doente...  
E como se fosse um aquário, ela tateou em volta de si mesma tentando encontrar uma saída e novamente foi inútil.
Seu corpo, então, começa a ficar pesado e aquela gostosa sensação de formigamento se finda bruscamente. E foi possível ouvir o seu grito estridente ecoando pela vizinhança quando a lua se partiu e seu corpo resolveu que era à hora de voltar, caindo rapidamente em seu colchão largo e macio.
E trancada no quarto, ela espera e espera... Em desespero em pesadelo. Deitada na cama, com um pedaço de vidro da lua ao lado, tentando apagar a dor que senti e seus joelhos sangram. Mas essa dor não é maior nem mais forte do que a dor de ter que esquecer que é impossível se ter liberdade para viver e ter força e calma a cada amanhecer.
As marcas no corpo, não são maiores nem mais dolorosas do que as marcas na alma, trazendo a loucura e os calmantes. Imaginado que fazendo o seu corpo sangrar, a dor pode passar. Mas é inútil! A verdade é o avesso!
E trancada no quarto, ela espera e espera... Quem sabe um dia adormece.


MS
Escrito em
12/03/2011



quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Le coeur du POEMA

Si on voit les feuilles
On voit les poèmes

Les poèmes
sont comme les feuilles
qui tombent des arbres

Le vent les fait sauter et danser sur la terre 


Ensuite
les feuilles voyagent vers l’inconnu
Loin des arbres qui les gardaient

Elles voyagent
voyagent

Elles volent
volent

jusqu’à devenir une aile de papillon

Alors, les feuilles découvrent le monde

Elles sont comme moi
Lorsque je lis un poème...

MS


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Perdas


Perco as horas
Minutos...
Segundos...
Perco o tempo!
Sobram-me os retalhos
Tento colá-los,
mas sempre saem
desordenados
Então, recorto
e colo novamente
Recorto,
colo, cola,
recortar,
colar...
Não consigo apagar
as falhas
E perco o tempo
Segundos...
Minutos...
Perco as horas
Perco a vida...

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Un oiseau perdu

Sei que escrevo coisas sem sentido
Coisa com coisa
Mas é assim que me sinto
Não quero dizer que me sinto uma coisa
Não é isso
Digo que:

La dernière poésie

Quando meu amado se foi,
ele disse:
- Estou te deixando!
Então, fechei as portas
e disse adeus.
Levou-me os Beatles
e me deixou o Cazuza.
Me tranquei no banheiro
e chorei.
Vi uma face desconhecida no espelho...
Um olhar perdido
que estava ancorado
em um horizonte infinito.
Meu corpo pendeu para o abismo
e o vento transformou
minhas asas
em pó.
Cheguei a Geena
e conheci Ades.
Ele soltou os demônios
roubou meu trevo de quatro folhas
e despedaçou-me.
Então, me tornei palavras
e virei poesia.

La dernière poésie. In: Pró reitoria de extensão da Universidade Federal do Pará. (Org.). Antologia: poesias, crônicas e contos. 2ed.Belém: Universidade Federal do Pará, 2011, v. I, p. 44-45.
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